domingo, 9 de dezembro de 2012

Aníbal Machado (9/12/1884 - 20/01/1964): Viagem aos seios de Duília

Há 118 anos, em 9 de dezembro de 1894, nasceu em Sabará (MG) o escritor Aníbal Machado. 

Autor de apenas 13 contos, Aníbal produziu, pelo menos, uma obra-prima: "Viagem aos seios de Duília", o qual, na opinião dos críticos, não é apenas um dos maiores contos brasileiros, mas merece figurar entre os maiores do conto universal.

Este conto narra as desventuras de José Maria, um funcionário público, que sublimou na dedicação ao trabalho a sua solidão, a falta de convívio com as mulheres, a incomunicabilidade. José Maria jamais se libertou da visão de um seio de Duília, quando ambos eram adolescentes. Ao se ver aposentado, depois de estéreis tentativas de, enfim, "viver a vida", o velho funcionário, mais do que nunca, se volta para aquela visão do passado e decide ir à procura da mocinha que lhe proporcionou, talvez, a única coisa boa da sua vida.

É um texto magistral sobre a coragem do ser e do vir a ser, sobre a busca de novos desafios e a recusa a considerar aposentadoria como sinônimo de morte, embora esta busca e esta recusa possam ser inúteis.


Viagem aos seios de Duília
Aníbal Machado (1944)

Durante mais de trinta anos, o bondezinho das dez e quinze, que descia do Silvestre, parava como um burro ensinado em frente à casinha de José Maria, e ali encontrava, almoçado e pontual, o velho funcionário.
Um dia, porém, José Maria faltou. O motorneiro batia a sirene. Os passageiros se impacientavam. Floripes correu aflita a avisar o patrão. Achou-o de pijama, estirado na poltrona, querendo rir.
— Seu José Maria, o senhor hoje perdeu a hora! Há muito tempo o motorneiro está a dar sinal.
— Diga-lhe que não preciso mais.
A velha portuguesa não compreendeu.
— Vá, diga que não vou... Que de hoje em diante não irei mais.
A criada chegou à janela, gritou o recado. E o bondezinho desceu sem o seu mais antigo passageiro.
Floripes voltou ao patrão. Interroga-o com o olhar.
— Não sabes que estou aposentado?
—Uê!...
— Sim, Floripes. Aposentado.
— E que vai fazer agora, patrão?
— Sei lá, Floripes... Sei lá!
— Mas o almoço será sempre servido à mesma hora, pois não?
— Tanto faz. Pode ser às nove e meia, onze, meio-dia ou quando você quiser. Minha vida de hoje em diante vai ser um domingão sem fim...
Debruçado à janela, José Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste. Saíra na véspera o decreto de aposentadoria. Trinta e seis anos de Repartição.
Interrompera da noite para o dia o hábito de esperar o bondezinho, comprar o jornal da manhã, bebericar o café na Avenida, e instalar-se à mesa do Ministério, sisudo e calado, até as dezessete horas.
Que fazer agora?
Não mais informar processos, não mais preocupar-se com o nome e a cara do futuro Ministro.
Pela primeira vez fartava a vista no cenário de águas e montanhas que a bruma fundia.
Inúmeras vezes o fizera, mas sem perceber o Pão de Açúcar e a baía, as ilhas e os navios, o Corcovado e as praias do Atlântico, sempre se interpondo entre seus olhos e a paisagem uma reminiscência molesta, lembrança de antigo aborrecimento ou de contrariedades na Repartição. Se algum navio transpunha a barra e vinha crescendo para o porto no ritmo calmo da marcha, seu coração amargava-se contra o sobrinho Beto que embarcara como radiotelegrafista de um navio do Lóide, e nunca mais dera notícias; se o Cristo do Corcovado se erguia de um pedestal de nuvens, vinha-lhe à memória aquele triste fim de tarde, lá em cima, em que pela primeira vez na vida se conduziu de maneira vergonhosa, embriagado que estava, a dizer impropérios contra a República e contra um ato injusto do "Sr. Ministro", até ser detido por um guarda. Aposentado agora, continuava a ligar os diferentes aspectos da natureza a acontecimentos que a deformavam.
Com os trinta e seis anos perdidos na Repartição, teria perdido também o dom de viver?
Muito próximo se achava ainda desse passado para não lhe receber a influência. A manifestação de despedida fora ontem mesmo. Cobriram-lhe a mesa de flores; saudou-o em nome dos chefes de serviço o diretor mais antigo, seu ex-adversário; falou depois um dos subordinados, estudante de Medicina; por último uma funcionária, a Adélia, que usava decote largo, se referiu "à competência e exemplar austeridade do querido chefe de quem todos se lembrarão com saudade". Uma menina, filha do arquivista, fez-lhe entrega de uma bengala de castão de ouro, com a data e o nome. E o Ministro mandou um telegrama.
Foi só, estava encerrada a etapa principal e maior de sua vida.
Os decênios de trabalho monótono, de "austeridade exemplar" como dizia Adélia, forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar?
Adélia não podia imaginar o que para ele representava a "exemplar austeridade". Adélia jamais saberá o que ocorria na alma do antigo chefe quando os olhos deste passavam como um relâmpago pelo colo branco de sua subordinada; talvez nem ela pressentisse. Austero coisa nenhuma: desajeitado apenas, tímido: gostaria de poder fazer o que censurava nos outros.
Floripes admirava a bengala procurando decifrar os dizeres do castão de ouro.
— E o que me resta, Floripes, dos trinta e seis anos. Isso e um telegrama do Ministro!
— O que me está a dizer, patrão?
— Nada, Floripes.
"Ora veja! Estou livre agora, livre!... Mas livre para quê?"

Ao clarear do dia seguinte escancarou a janela para a baía. Procurava sentir a manhã de sol como a deviam estar sentindo àquela hora os moradores da bela colina. Mas nada lhe diziam os barcos a vela flutuando longe, nem os castelos de nuvens que se armavam no céu.
Ia experimentar a cidade, andar sem destino. E sem chapéu. A ausência do chapéu seria a primeira mudança exterior em seus hábitos, um começo de libertação. Até então, a moda lhe parecera ridícula, além de fonte de resfriados. E se envergasse uma camisa esporte? Poderiam rir-se dele: a pele do pescoço perdera consistência; e a marca circular do colarinho duro lá estava, firme como uma tatuagem.
Na rua, um colega veio dizer-lhe que os jornais deram a notícia; alguns até com elogios ao velho servidor. O amigo abraçou-o. E logo recuou com certo espanto: — O seu chapéu, Zé Maria?
— Ah, não uso mais!...
— Felizardo! Vai começar a gozar a vida, hein? Já até parece outro homem, disse, interpretando a ausência do chapéu como o primeiro passo para um programa de rejuvenescimento.
O aposentado livrou-se do importuno. "Livre! Estou livre!" Namorou vitrinas, tomou café, repetiu café, tomou chope, foi, voltou, viu, tomou café outra vez, cumprimentou... O tempo não passava. Mais lento ainda do que na Repartição.
A título de despedir-se de alguns companheiros e de apanhar uma caneta-tinteiro, lembrou-se de chegar até lá. Na verdade, sentia-se impelido por um desejo ambíguo, como o general reformado que vai à paisana em visita a seu antigo regimento. Era tarde, porém; o rush se avolumara. Achou melhor voltar para casa, postar-se na fila do bonde. "Livre! Estou livre!"
Durante a subida, a brisa fresca fê-lo sentir a falta do chapéu. Via-se como que despido.
Floripes serviu-lhe o jantar, deixou tudo arrumado, e retirou-se para dormir no barraco da filha.

Mais do que nunca, sentiu José Maria naquela noite a solidão da casa. Não tinha amigos, não tinha mulher nem amante. E já lera todos os jornais. Havia o telefone, é verdade. Mas ninguém chamava. Lembrava-se que certa vez, há uns quinze anos, aquela fria coisa, pendurada e morta, se aquecera à voz de uma mulher desconhecida. A máquina que apenas servia para recados ao armazém e informações do Ministério transformara-se então em instrumento de música: adquirira alma, cantava quase. De repente, sem motivo, a voz emudecera. E o aparelho voltou a ser na parede do corredor a aranha de metal, sempre calada. O sussurro da vida, o sangue de suas paixões passavam longe do telefone de Zé Maria...
Como vencer a noite que mal começava?
Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos de vinho do Porto, deitou-se. A espaços ouvia o barulho do bondezinho rilhando nas curvas da colina, a explosão de um e outro foguete que subiam da vertente de Aguas Férreas, seguida de latidos de cães e gritos indistintos. Ingeriu outra dose de vinho. E adormeceu.
O telefone toca. Quem será? Quem se lembraria dele? Algum convite? Trote?
— Alô, meu bem!
— Alô! aqui fala José Maria.
— É engano, proferiu secamente a interlocutora.
Era engano! Antes não o fosse. A quem estaria destinada aquela voz carregada de ternura? Preferia que dissesse desaforos, que o xingasse.
A boca feminina já devia estar dizendo frases de amor na linha procurada.
Era um triste aparelho telefônico!
Atirou-se de bruços na cama. E sonhou. Sonhou que conversava ao telefone e era a voz da mulher de há quinze anos... Foi andando para o passado... Abriu-se-lhe uma cidade de montanha, pontilhada de igrejas. E sempre para trás — tinha então dezesseis anos -, ressurgiu-lhe a cidadezinha onde encontrara Duília. Aí parou. E Duília lhe repetiu calmamente aquele gesto, o mais louco e gratuito, com que uma moça pode iluminar para sempre a vida de um homem tímido.
Acordou com raiva de ter acordado, fechou os olhos para dormir de novo e reatar o fio de sonho que trouxe Duília. Mas a imagem esquiva lhe escapou, Duília desapareceu no tempo.
À medida que os meses passavam, foi tomando horror à expressão "funcionário público aposentado", que lhe cheirava a atestado de óbito. Jurou nunca mais freqüentar a "Mão do Salvador", instituição de caridade, cuja sede, com seus móveis severos e gente sem graça, lembrava o ambiente atroz da Repartição.
Chamava Floripes a todo momento, queria saber minúcias do passado dela.
Ia dar início a profundas modificações em sua pessoa. Começaria pelos trajes: roupa clara, moderna, não mais aqueles ternos escuros cobrindo a eventual austeridade. Seu físico de homem empinado e enxuto não parecia de todo desagradável. Entraria de sócio para algum clube; e se encontrasse um professor discreto, talvez aprendesse a dançar.
Essas providências seriam a sua toilette exterior para a nova fase da vida.
Semanas depois, aliviado do colarinho duro, era visto pelas ruas em trajes mais leves, sorrindo forçado para os conhecidos.
Tornou-se sócio de um clube da Lagoa. Sozinho porém nunca punha os pés lá, até que um dia se fez acompanhar pelo Lulu, bom atleta e péssimo funcionário, que o apresentara como "velho servidor do Estado" às principais beldades do bairro. Como dialogar com elas? Não conhecia futebol nem equitação, não sabia jogar baralho, não guardava nomes de artistas de cinema, ignorava os escândalos da sociedade.
Tentou manter conversa, não conseguiu. Parecia-lhe que zombavam dele. Se algumas moças lhe dirigiam a palavra era como se lhe atirassem esmola. Acabou a noite só e triste, agarrado ao seu copo de uísque. Quase nunca provava essa bebida; achava-a até ruim. Como fazia parte do rito social, não custava virar o copo. Deixou o Lulu com as moças, e saiu fazendo uma careta. "Velho servidor do Estado..."
O farol dos automóveis apagava nas águas da Lagoa o reflexo das últimas estrelas. Um casal abraçava-se debaixo de uma amendoeira. Sentiu-se mais só. A vida era para os outros. Antes tivesse ainda algum processo a informar; estaria ocupado em alguma cousa. Não! Um começo de soluço contraiu-lhe a garganta. Chamou um taxi.
No dia seguinte postou-se, como outros de sua idade, numa das esquinas da Rua Gonçalves Dias, local preferido pelos militares da reserva e aposentados de luxo, gente saudosa do passado. Notou que eles se compraziam em adejar perto dos doces da confeitaria, e ver passar as damas elegantes de outrora.
Ali se perfilava, de terno branco, um velho Almirante de suas relações:
— Olhe, faça como eu: nunca se convença de que é aposentado. Adquira algum vício, se já não o tem. Evite os velhos. Um pouco de exercício pela manhã. Hormônios às refeições, não é mau. Quanto a conviver, só com gente moça.
Ele aprendera na véspera o que era conviver com gente moça... Para rematar, e como índice de otimismo, contou-lhe o Almirante uma anedota pornográfica.
O funcionário riu com esforço, e despediu-se enojado. Entrou numa livraria. Buscaria a solução na leitura dos romances.
Pediu um, à escolha do caixeiro. Tentou ler. Impossível passar das primeiras páginas. Não compreendia como tanta gente perde horas lendo mentiras. Ao atravessar, dias depois, o Viaduto, deixou o livro cair lá embaixo, sentiu-se livre daquilo.
O melhor mesmo era ficar debruçado à janela. E todas as manhãs, enquanto a criada abria a meio as venezianas para deixar sair a poeira da arrumação, José Maria as escancarava para fazer entrar a paisagem. Dali devassava recantos desconhecidos. Ilhas que jamais suspeitara. Acompanhava a evolução das nuvens, começava a distinguir as mutações da luz no céu e sobre as águas. Notava que tinha progredido alguma coisa na percepção dos fenômenos naturais. Começava a sentir realmente a paisagem. E se considerava quase livre da uréia burocrática.
Esse noivado tardio com a natureza fê-lo voltar às impressões da adolescência.
Duília!...
Toda vez que pensava nela, o longo e inexpressivo interregno do Ministério, que chegava a confundir-se com a duração definitiva de sua própria vida, apagava-se-lhe de repente da memória. O tempo contraía-se.
Duília!

Reviu-se na cidade natal com apenas dezesseis anos de idade, a acompanhar a procissão que ela seguia cantando. Foi nessa festa da igreja, num fim de tarde, que tivera a grande revelação.
Passou a praticar com mais assiduidade a janela. Quanto mais o fazia, mais as colinas da outra margem lhe recordavam a presença corporal da moça. Às vezes chegava a dormir com a sensação de ter deixado a cabeça pousada no colo dela. As colinas se transformavam em seios de Duília. Espantava-se da metamorfose, mas se comprazia na evocação.
Não ignorava o que havia de alucinatório nisso. Chegava a envergonhar-se. Como evitá-lo? E por que, se isso lhe fazia bem?
Era o aforamento súbito da namorada, seus seios reluzindo na memória como duas gemas no fundo d'água. Só agora se dava conta de que, sem querer, transferira para Adélia a imagem remota. Mas Adélia não podia perceber que era apenas a projeção da outra. Mesmo porque, temendo o ridículo, José Maria jamais se deixara trair.
Disponível, sem jeito de viver no presente, compreendeu que despertara com muitos anos de atraso nos dias de hoje. Não encontraria mais os caminhos do futuro, nem havia mais futuro nenhum. Chegara ao fim da pista. De Beto, não havia mais notícias.
Da velha cidade que restava? Onde o Rio de outrora? As casas rentes ao solo, os pregões, o peixeiro à porta? A cada arranha-céu que subia — eles sobem a todo momento — a cidade calma de José Maria ia-se desmanchando.
Sentiu que sobrava. Impossível reatar relações com uma cidade irreconhecível. Pediu que o cancelassem do clube da Lagoa; desistiu da aula de dança.
Só lhe fazia bem desentranhar o passado. Dias e noites o evocava com a cumplicidade da paisagem. E no fundo da contemplação, insistiam os dois focos luminosos. Ora se acendendo, ora se apagando.
Odiava recordar-se da Repartição. Nem sabia explicar como, nas tardes de movimento, mais de uma vez suas pernas o largaram nas imediações do Ministério.
Começava a sentir-se livre. Para outra direção o chamava o que havia de mais excitante em sua vida. Ao apelo póstumo, nem tudo de seu passado parecia perdido. Sabia agora o que ia fazer. Trauteando uma canção, tomou o bondezinho. Entrou em casa com o coração palpitando. Reviu-se mais jovem ao espelho.
Quando Floripes chegou de manhã cedo, encontrou-o de pé. Lamentava não ter tempo de encomendar um terno novo para apresentar-se melhor ao seu passado...
— Floripes, tu tomas conta do apartamento. Eu vou viajar. Meu procurador te dará dinheiro para as despesas. Se Beto aparecer, dirás que eu parti... Dirás também que... Não, não precisas dizer mais nada. Se quiseres, traze para cá tua filha e o netinho.
Floripes parou espantada.
— Será que o patrão vai-se embora?
— Vou, Floripes.
— Para não voltar mais?
— Não sei, Floripes.
— E se chegar alguma carta, patrão, para onde devo mandar?
— Não haverá cartas para mim. Ninguém me escreve...
— E se alguém telefonar?
— Oh, Floripes, por favor...
O que transpirava de solidão e amargura nessas palavras, compreendeu-o a velha Floripes, que se absteve de novas perguntas.
Descendo à cidade, José Maria comprou malas, preveniu passagens. Outro homem agora, alegre quase. Não precisaria mais fazer esforço para ser o que não era. Difícil coisa querer forçar a alma e o corpo a uma vida a que não se adaptam. Agora, sim, ia ser feliz. E se alvoroçava como o imigrante que se repatria.
Fazia uma tarde bonita. Pela primeira vez Zé Maria achara agradável estar na rua. Mulheres sorrindo, vitrinas iluminadas. Parecia que a cidade, à última hora, caprichava em exibir-lhe alguns de seus encantos. Assim procede a mulher indiferente, ao ver partir o homem a quem fez sofrer.
Comprou um mapa do país. Só com apertá-lo ao peito sentiu-se livre e já fora do Rio. Voltou para casa. Abriu-o em cima da cama, seguindo com a ponta do lápis os meandros do coração montanhoso do Brasil.
— Aqui! marcou.
Era perto de uma cordilheira no centro-sul. A cidadezinha enchia-lhe o coração, embora insignificante demais para constar na carta.

Estranhou o apito fanhoso da Diesel à hora da partida. Voz sem autoridade, mais mugido que apito. Tão diferente do grito lírico da locomotiva que há mais de quarenta anos o trouxera do interior. Entristeceu. Muita coisa haveria que encontrar pela frente, modificada pelo progresso: a locomotiva por exemplo; o trem de luxo em que viajava.
Seu desejo era refazer de volta, pelos meios de antigamente, o mesmo roteiro de outrora. Impossível. Estradas novas vieram substituir-se aos caminhos que levam ao passado. Com o coração inundado de reminiscências, preferia evitar Belo Horizonte. Receava que a visão da cidade nova viesse aumentar-lhe a sensação do envelhecimento pessoal.
Pela madrugada, o trem parou horas entre duas estações. O viajante despertou com o silêncio. Só ouvia o sussurro do ventilador. Toda a composição de um cargueiro tinha tombado mais adiante, entornando manganês pelo vale. Preparava-se a baldeação.
José Maria aproveitou para descer, e sentir o cheiro de Minas. O sol vinha esgarçando devagar o véu de bruma que cobria as serras tranqüilas. Anoitecia já em Belo Horizonte, quando chegou com atraso. Disseram-lhe que era preciso tomar, no dia seguinte, a "jardineira" para Curvelo.
A nova Capital, mesquinha cidade poeirenta há quarenta anos, era agora um grande centro onde ninguém se lembraria dele. Para que então sair à rua, ver arranha-céus, caminhar entre as novas gerações de desconhecidos? Preferível fechar-se no quarto do hotel até que chegasse a hora da "jardineira".
Agradável na manhã seguinte o percurso numa rodovia que não era de seu tempo. Ônibus e caminhões escureciam as estradas de poeira. Ao pé de uma serra calcárea, que conhecera intacta, as chaminés de uma fábrica de cimento emitiam rolos de fumaça escura. Mais adiante, os fornos de uma siderúrgica.
Cansado, adormeceu. Despertou com um coro longe, de vozes, coro que subitamente cresceu e passou, lançando-lhe no coração um jacto de poesia. Era uma "jardineira" repleta de mocinhas, colegiais de uniforme azul e branco que desciam do sertão para a reabertura do ano letivo na capital. No banco ao lado, um passageiro queimado de sol parecia esperar que José Maria acordasse para encetar conversa.
— Pois é. Estamos em fins de fevereiro e nada de chuva! Em toda a parte agora tem Ceará. Se aquilo lá desaba — apontou para uma nuvem escura — é porque Deus qué me ajudá: tá mesmo em cima de minha roça. Mas não desaba, não!...
Olhou fitamente para José Maria. Teria achado nele um tipo estranho à região.
— Vosmecê também vai comprá cristá, não é?
— Não, respondeu José Maria.
— Tá indo pro Rio S. Francisco?
— Não. Estou indo para um lugar chamado Pouso Triste.
— Pra cá de Monjolo? Ah! conheço por demais... Já botei roça lá perto.
— Ouviu por acaso falar em Duília?
— Duília... Duília... Espera aí... Duília... Ah! o senhor queria dizer D. Dudu, não é? Conheço muito.
José Maria sentiu um estremecimento. Arrependera-se da pergunta. Calou-se. A deformação de um nome tão doce como Duília horrorizava-o. Devia ser outra pessoa. Era melhor não prosseguir na conversa. O homem queimado compreendeu, e calou-se.
Ao entardecer, apitava uma fábrica de tecidos e uma vitrola esganiçava a todo pano, quando a "jardineira" encostou à porta do hotel principal de uma cidade. Era Curvelo, boca do sertão mineiro.
José Maria já se sentia dentro da área do passado.
Daí em diante a viagem se faria nas costas de um burro. Tudo como quando tinha dezesseis anos. Tratou um "camarada" que o gerente do hotel lhe indicara. Na manhã seguinte, cedinho, partiu rumo de leste.
— Se não cai temporá, nóis chega dereitinho, patrão — disse-lhe o camarada, enquanto Curvelo desaparecia atrás, numa nuvem de poeira.
O velho funcionário, ao mesmo tempo que sentia a delícia de montar um animal e respirar o ar puro, receava lhe voltassem aquelas pontadas que o atormentavam na Repartição.
Soero, o camarada, desconfiava estar seguindo um homem importante; mas não ousava perguntar.
— O Rio das Velhas vem vindo por aí, anunciou depois das primeiras horas de caminhada.
Pouco depois, o rio fiel aparecia ao viajante. — Oh! velho Rio das Velhas! exclamou José Maria. Sempre no mesmo lugar! E todo esse tempo me esperando!
Achou-o tranqüilo, mas um pouco emagrecido.
Soero foi chamar o balseiro, enquanto José Maria, agachado na areia, deixava que o velho rio lhe ficasse correndo longo tempo entre os dedos.
Embarcaram as alimárias, e foram deslizando de balsa para a margem oposta.
De pé, o funcionário parecia estar sonhando. A bengala desamarrou-se da mala e caiu na correnteza. Soero quis mergulhar. — Deixa, deixa! gritou José Maria.
Preferia não perdê-la. Era afinal uma lembrança dos ex-colegas. Mas já que foi para o fundo do rio, que lá ficasse.
Almoçaram e retomaram a montaria.
— Agora vem Dumbá. Oito léguas, disse o camarada.
— E o Paraúna? reclamou o viajante, recordando-se.
— Ainda temos que atravessá.
Tudo era deslumbramento para o viajante. À medida que ouvia esses nomes quase esquecidos, a coisa nomeada aparecia logo adiante, rio ou povoado.
As léguas se estiravam, a noite ia longe. Ou porque a escuridão fosse maior com a lua minguante, ou porque a correnteza engrossasse de repente, o Paraúna surgiu mudado e agressivo. Nem parecia o rio que os viajantes atravessam a vau. Soero explicou que devia ter chovido muito nas cabeceiras, daí aquele despropósito de águas; mas baixariam depressa, esses rios magrinhos enfezam por qualquer pancada de chuva, depois se aquietam que nem córrego manso.
— Se vosmecê não quisé chegá até o arraiá, a gente espaia os burro e arrancha por aqui mesmo.
Apearam-se. Soero desceu os arreios e a cangalha, amarrou o cincerro ao pescoço do cavalo-madrinha, e deixou os animais pastando perto.
Deitado no couro, José Maria escutava o sussurro das águas. Pouco se lhe dava o corpo moído, a dor nos rins. Nunca se imaginara deitado ao relento, a cabeça quase encostada a um de "seus rios". Ficou a escutá-lo. Era como o primeiro rumor de um passado que vinha se aproximando.
Cobrindo-se com a manta, adormeceu. Soero fumava e se persignava, a olhar desconfiado para a outra margem onde um vulto branco parecendo fantasma esperava pelo abaixamento das águas.
De madrugada o Paraúna voltou ao natural. Soero saudou o vulto de branco com quem cruzou no meio do rio. O homem respondeu em latim. José Maria se espantou ao ouvir frases latinas em cima daquelas águas, naquele ermo... Perguntou o que era aquilo. Soero disse que não sabia, sempre o encontrava bêbado pelos caminhos.
— Dizem que sabe muito e ficou maluco.
As alimárias seguiam agora em trote mais animado para a Rancharia do Dumbá, onde, a conselho do "camarada", devia o viajante descansar o resto da tarde e passar a noite, antes de encetarem a travessia mais difícil da Serra do Riacho do Vento, na Cordilheira do Espinhaço.
A Rancharia é pouso forçado para quem atravessou ou vai atravessar a Cordilheira. Reconheceu-a de longe o viajante, pelo pé de tamarindo. O mesmo de sempre.
O pernoite ali, enquanto os animais recebiam ração mais forte de sal e capim, ia permitir ao metódico funcionário a recuperação das forças exaundas. Viagem violenta demais para um sedentário.
Ficara-lhe nos ouvidos o Paraúna com o barulho de suas águas. Não era o desconforto da cama nem a pobreza do aposento que lhe tiravam o sono; nem o latido dos cães, nem o relinchar dos burros; nem uma sanfona triste que parecia exprimir toda a solidão lá fora: era o fato de se achar mais perto, dentro quase daquilo que não precisava mais evocar para sentir.
Mais algumas léguas e tocaria o núcleo de seu sonho.
O que mais o espantara no gesto de Duília — recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro — foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia a ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e, com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse: — Quer ver? — Ele quase morre de êxtase. Pálidos ambos, ela ainda repete: — Quer ver mais? — E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando...
Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento.
Custava acreditar que estivesse agora se aproximando dessa fonte de claridade. Sentiu bater mais depressa o coração. E desejou que o dia raiasse logo.
Puseram-se de novo a caminho. Horas depois, galgavam a serra. Salvo nos capões onde a quaresma e o pequizeiro se destacavam, a vegetação ia-se fazendo mais pobre: canela-de-ema, coqueiro-anão, cacto — enquanto o panorama se ampliava, e a vista abarcava os longes. Por um segundo essa paisagem cruzou no pensamento de José Maria com o panorama de Santa Teresa. Um segundo apenas, pois logo apareceu uma boiada que lhe cobriu o rosto num turbilhão de poeira.
Faltava o trecho maior para se chegar ao Arraial de Camilinho. Os burros suavam na subida penosa. — Daqui a pouco vem o Chapadão, avisou Soero.
A essa palavra, José Maria animou-se. Tal como na antevéspera, ao ouvir o nome Rio das Velhas.
Pela altitude, pelas suas léguas de pedra e vento, pelo seu silêncio, esse chapadão do Riacho do Vento lhe surgira como entidade autônoma e orgulhosa, que dava passagem ao homem mas lhe negava abrigo para morar e pastagem para o gado.
Era o trecho mais imponente e difícil no acesso à região de Duília. Por ali transitara há mais de quatro decênios, fazia uma noite escura, só pelos relâmpagos podia suspeitar o panorama irreal que se desdobrava de dia. Ia então fazer os preparatórios em Ouro Preto, e caminhava cheio de medo para o Futuro; seu pai e um caixeiro-viajante o acompanharam até a primeira estação da Estrada de Ferro. Láo puseram no carro. Foi quando começou a ficar só no mundo, e pela primeira vez chorou o choro da tristeza.
O velho funcionário não dava uma palavra. Contemplava. À esquerda, as extensões lisas das "gerais" do S. Francisco; à direita, as colinas arranhadas pelas minerações da bacia do alto Jequitinhonha. Estranhava o ar parado numa serra que trazia o nome de Riacho do Vento.
Entre os trilhos quase apagados que confundiam o viandante, quem dava a direção era o cincerro do cavalo-madrinha.
Já o sol deixara de reluzir nos aforamentos de pedra e mica, e ainda havia léguas pela frente. Como fica longe o lugar do passado!
Abatido, o olhar vago, o viajante parecia estar seguindo os caminhos do próprio pensamento. O cansaço aumentava. Onde o fim do Chapadão?
Imenso Brasil. Era então por esses ermos sem fim que corriam ofícios e papéis da administração pública?! Quantos, ele mesmo, José Maria, fizera despachar sem a mais vaga idéia das distâncias que iam cobrir! Mergulhava em reflexões. Infinita a distância entre a natureza e o papelório! De repente, dirigindo-se ao camarada:
— Você conhece Duília?
Soero não ouvira bem, ou não compreendera a pergunta que vinha perfurar um silêncio de horas. Esperou que o patrão a repetisse, mas o grito de um pássaro desmanchou o começo do diálogo. E tudo ficou por isso mesmo.
Depois de seis léguas de marcha batida, Soero sentiu que o homem misterioso não agüentava mais.
— Acho que de uma vezada só até Camilinho, é um bocado de chão pra vosmecê.
Propôs uma pausa. Pouco adiante, descobriu uma grota para o pernoite. Num córrego de águas frescas, os animais desarreados mataram a sede. Os dois homens jantaram o que traziam nos bornais. Os couros Foram novamente estendidos. José Maria, amedrontado, perguntou a Soero se havia onças por ali.
O camarada tranqüilizou-o. Enquanto para este era aquela uma noite de rotina, para o velho funcionário repetia-se, a céu descoberto, a aventura excitante das margens do Paraúna. Doíam-lhe tanto os membros e era tal o cansaço, que já não podia contemplar por muito tempo as estrelas que cintilavam pertinho. Mergulhou no sono pesado.
Às onze horas do dia seguinte, entrava no Arraial do Camilinho. Aí se dispunha a refazer as energias para a etapa final.

Tudo o que vinha percorrendo já era país de Duília. Agora sim, não precisava ter pressa. A bem dizer, do alto do Riacho do Vento para cá, a moça parecia ter-lhe vindo ao encontro. Era como se ela viajasse na garupa do animal.
O resto da tarde e a noite passou-os José Maria na pensão da Juvência. A velha nem se lembrava de que ele ali estivera, adolescente, ao deixar Pouso Triste: também ela o supunha algum emissário norte-americano atrás de minério para a guerra. José Maria preferiu passar incógnito. Absteve-se de pedir informações.
Mais seis horas e estaria naquela cidadezinha, face a face com a mulher sonhada. Não imaginava agora fosse tão fácil aproximar-se do que tão longe lhe parecera no tempo ou no espaço.
Detinha o burro a cada momento; olhava, hesitava. Nem mesmo se inquietara com a nuvem de chuva que vinha avançando do nordeste. Soero estranhou a indiferença do patrão. O aguaceiro caiu, molhou a ambos.
José Maria tinha medo de chegar.
Passou a chuva, veio o sol, borboletas voejavam sobre a lama recente. E Pouso Triste se aproximando... perfil de colinas conhecidas... o riacho cristalino com um último faiscador... o sítio do Janjão. Agora, o cemitério onde dormem os seus pais... "Estarei sonhando?"
— Pouso Triste!
Olhou confrangido. Era então aquilo!... E a cidade?
Trazia na memória a visão de uma cidade: surgiu-lhe um arraial!... Pobre e inaceitável burgo, todo triste e molhado de chuva!...
Foi descendo devagar. Passou em frente à igreja, entrou na praça vazia. Fantasmas desdentados conversavam à porta da venda.
A brisa agitava as folhas da única árvore gotejante.
Tinha sido ali...
A pensão. Parou e entrou. Pediu um banho, mudou de roupa. Sórdido chuveiro. Foi para a janela. Povoado lúgubre! Como compará-lo à cidade luminosa que erguera em pensamento para santuário de Duília? Teve raiva de si mesmo. Nenhum parente, ninguém para reconhecê-lo. Melhor assim. Fixou a árvore. Era a mesma... Pelo menos aquilo sobrevivera. Saiu para vê-la de perto; deixou-se ficar debaixo de seus galhos. Reviveu a cena inesquecível... Mas não encontrou o mesmo sabor. A árvore parecia indiferente.
Não se conformava com a falta de claridade. Nem a da luz exterior, nem a outra, subjetiva, que iluminava a cidade ideal onde se dera a aparição da moça.
Pertinho, bem perto devia estar ela. Tão perto que assustava. Dentro de poucos instantes — o seu rosto, a sua voz, os seios!... Mas aquele marasmo, o torpor das coisas — o envelhecimento da árvore e da paisagem, tudo prenunciava a impossibilidade de Duília.
Timidamente, pediu notícias à dona da pensão. A velha fez um esforço de memória. E tal como o passageiro da "jardineira", respondeu: — Duília?... Dona Dudu, não é? Uma viúva? Ah! sumiu daqui já faz tempo. Ouvi dizer que está de professora no Monjolo. Ainda que mal lhe pergunte, vosmecê é parente dela? — Não, disse José Maria. E para desarmar a curiosidade da velha:
— Trago-lhe umas encomendas.
Deixou passar alguns instantes. Perguntou por perguntar:
— Sabe dizer se tem filhos?
— Filhos? Um horror de netos!... Que Deus me perdoe, o marido era uma peste.
Não quis saber do resto.
Despediu-se de Soero, o bom camarada; pagou-lhe bem o serviço. Seguiria sozinho até Monjolo. Conhecia a estrada. Pouco mais de três léguas. Léguas que se tornaram difíceis, pois a lama era muita, e o burro mal ferrado patinhava.
A viagem se arrastava sem o encantamento da que terminara na véspera. Não desejava que a decepção de Pouso Triste influísse na sua chegada a Duília.
Tudo agora parecia pior, o caminho mais estreito, mais aflitiva a ausência de claridade. Sentiu o deserto no coração. Sua alma deixou de viajar. Fazia-lhe falta a presença muda de Soero. Fez parar o animal.
— Será que Duília...
Novamente lhe viera o terrível pressentimento. Como aceitar outra imagem dela senão a que guardara consigo: a namorada eterna, fixa? A imaginação delirante não cedia à evidência da razão.
A poucas horas da amada, José Maria tremia de medo.
O burro começou a andar por conta própria. Os últimos quilômetros o viajante os fez como um autômato.
Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil.
Foi surgindo pela frente um arraial ainda menor e mais pobre que Pouso Triste. Os urubus não freqüentavam o céu, quase se deixavam pisar pelas patas da alimária. José Maria engoliu um soluço.
Tomados de espanto, os poucos moradores espiavam o estrangeiro.
O letreiro "Escola Rural" aparecia em tinta esmaecida. Uma casinha modesta, com chiqueiro no porão. A sala de espera limpa, com gravuras de santos enfeitados de flores de papel, e que tanto servia à Escola como à residência, nos fundos. As carteiras escolares estavam quebradas.
O viajante apeou-se, bateu à porta. Uma senhora, muito pálida, veio atendê-lo em chinelos.
— Eu queria falar com Duília... Dona Duília... corrigiu.
A senhora fê-lo entrar e sentar-se. Pediu licença, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos, a voz meio rouca, o sorriso agradável, apesar dos dentes cariados. Ainda não tinha sessenta anos, e aparentava mais.
— A senhora também é professora?
Duas crianças gritaram da porta: — Dona Dudu! Dona Dudu!
Ela respondeu: — Vão brincar lá fora. E virando-se para o estranho: — Não se pode ficar sossegada um minuto. Esses meninos acabam com a gente.
José Maria sentiu como que uma pancada na nuca. Baixou as pálpebras, confuso. A professora ficou esperando que ele se identificasse. Notou-lhe a fisionomia alterada, um começo de vertigem.
— Está-se sentindo mal?
Saiu e voltou com um copo d'água.
— Não foi nada. O cansaço da viagem. Já passou.
Olhava para ela estarrecido.
A mulher, aflita por que o desconhecido desse o nome.
— Veio a passeio, não é?
— Não. Não vim propriamente a passeio...
— Um lugar tão distante... Ultimamente as jazidas têm atraído muitos estrangeiros para cá.
— Eu não sou estrangeiro — respondeu o visitante. Sou brasileiro... E daqui... de bem perto daqui. Sou também de Pouso Triste...
Uma expressão de surpresa e simpatia clareou o rosto da professora. José Maria encarou-a com dolorosa intensidade. Subitamente empalideceu. Chegara o momento culminante. Fechou os olhos como se não quisesse ver o efeito das próprias palavras. A professora pressentiu que algo de grave trouxera até ali o sombrio visitante. Atordoada, esperou. José Maria principiou a falar:
— Lembra-se de um rapazinho, há muitos anos, que a viu numa procissão?
A mulher abriu os olhos.
— Nós tínhanos parado debaixo de uma árvore... lembra-se? Ela ainda está lá... não morreu. Eu olhava como um louco para você, Duília...
Ao ouvir pronunciar seu nome com intimidade cúmplice, a professora teve um arrepio. O homem não sabia como continuar. Hesitou um momento.
— Depois... depois eu larguei Pouso Triste. Nunca mais me esqueci. E só agora...
Parou no meio da frase. Tremia-lhe o queixo.
A mulher, assustada, reconhecera nele o rapazinho de outrora. Fitou-o longamente. Passou-lhe pelo rosto um lampejo de mocidade.
Volvendo a cabeça para o chão, enrubesceu com quarenta anos de atraso...
Quedaram-se por alguns momentos. O vazio do mundo pesava sobre o sossego do povoado. Grunhiam os porcos embaixo. Um cheiro de lavagem e de goiaba madura entrava pela janela, e parecia a exalação do passado.
José Maria suspirou fundo. Aquela mulher, flor de poesia, era agora aquilo! Fantasma da outra, ruína de Duília... Dona Duília... Dudu!
A mulher interrompeu a longa pausa:
— Tudo aqui envelheceu tanto! disse, erguendo a cabeça. Que veio fazer nesse fim de mundo, seu José Maria?
Ouvindo-a por sua vez pronunciar-lhe o nome, sentiu-se José Maria menos distante dela. Parecia que davam juntos o mesmo salto no tempo.
— Vim à procura de meu passado, respondeu.
— Viajar tão longe para se encontrar com uma sombra! E volvendo-se para si mesma: — Veja a que fiquei reduzida.
José Maria pousou o olhar no colo murcho, local do memorável acontecimento.
Aquilo que ali estava poderia ser a mãe de Duília, da Duília que ele trazia na memória, jamais a própria.
— Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando da profunda cisma.
— O quê?
— Voltar ao lugar das primeiras ilusões.
"Sim, é verdade, pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor de seu passado não estava ali, estava dentro dele. A distância alimenta o sonho. Enganara-se. Tal como Fernão Dias com as esmeraldas..."
Ergueu-se, chegou à janela. A tarde caía depressa. Os casebres se fundiam na cinza suja. Uma preta entrou e acendeu o lampião de querosene.
Não tinha mais tempo para criar novas ilusões. Nada mais a esperar. Ficaria por ali mesmo... Floripes fizesse o que entendesse da casinha de Santa Teresa. Felizes os que ainda desejam alguma coisa, os que lutam e morrem por alguma coisa. Felizes aquelas meninas que desceram cantando para Belo Horizonte. A ele, José Maria, só lhe restava encalhar naquele buraco, dissolver-se por ali mesmo, agarrado aos últimos destroços do passado.
Sentiu falta de ar. Bem a seu lado se achava alguém que se dizia Duília, espectro da outra. Espectro também, Pouso Triste; e aquele mesquinho arraial lá fora... e tudo o mais que a noite vinha cobrindo!
Súbita raiva transfigurou-lhe as feições. Voltou a ser o estranho, o que invadira a mansão de miséria e paz da velha professora. Teve ímpeto de espancá-la, destruir aquele corpo que ousara ter sido o de Duília. Desse corpo de que só vira um trecho, num relâmpago de esplendor...
Ante o silêncio sombrio do visitante, a professora teve medo. Procurou aliviar-lhe o desespero contido.
— Vai voltar para o Rio?
Ao ouvir a voz mansa, José Maria enterneceu-se. Sentia-lhe no timbre a ressonância musical da antiga. Sentou-se de novo; e fechando o rosto com as mãos, caiu no pranto. Achou-se ridículo, pediu desculpas. Duília, compassiva, tomou-lhe a mão, procurou consolá-lo. Um sentimento comum aproximava-os.
Espantou-se a professora ao se dar conta do que estava fazendo: dar a mão ao quase desconhecido de há pouco.
Por longo tempo, as duas mãos enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoção, ambos cerraram os olhos. Duas sombras dentro da sala triste...
O homem não se conteve. Ergueu-se, saiu precipitadamente. A professora correu atrás:
— José Maria! Senhor José Maria!...
A voz rouca mais parecia soluço do que apelo.
— José Maria!
Os moradores se alvoroçaram:
— O que terá havido com a professora?
— Foi depois que chegou aquele estrangeiro alto!
— Quem será esse indivíduo?
E já se preparavam para perseguir o intruso, munindo-se de pedras e pedaços de pau. Mas o desconhecido desapareceu na escuridão.
Parada no meio do largo, Duília arquejava. Ninguém lhe ouvia mais a voz nem lhe distinguia o vulto.
Alguns soluços cortaram a treva.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Carlos Drummond de Andrade (31/10/1902 - 17/08/1987)

Há 110 anos, em 31 de outubro de 1902, nasceu em Itabira (Minas Gerais) o poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade.
Ele herdou dos modernistas a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas, mas foi além.
"A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi.



    No meio do caminho (publicado em 1928 na Revista Antropofagia)

    No meio do caminho tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    tinha uma pedra
    no meio do caminho tinha uma pedra.

    Nunca me esquecerei desse acontecimento
    na vida de minhas retinas tão fatigadas.
    Nunca me esquecerei que no meio do caminho
    tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    no meio do caminho tinha uma pedra.




    Quadrilha (http://www.memoriaviva.com.br/audio/quadrilha.mp3)

    João amava Teresa que amava Raimundo
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
    Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
    que não tinha entrado na história.



    José (http://www.memoriaviva.com.br/audio/jose.mp3)

    E agora, José?
    A festa acabou,
    a luz apagou,
    o povo sumiu,
    a noite esfriou,
    e agora, José?
    e agora, você?
    você que é sem nome,
    que zomba dos outros,
    você que faz versos,
    que ama, protesta?
    e agora, José?

    Está sem mulher,
    está sem discurso,
    está sem carinho,
    já não pode beber,
    já não pode fumar,
    cuspir já não pode,
    a noite esfriou,
    o dia não veio,
    o bonde não veio,
    o riso não veio,
    não veio a utopia
    e tudo acabou
    e tudo fugiu
    e tudo mofou,
    e agora, José?

    E agora, José?
    Sua doce palavra,
    seu instante de febre,
    sua gula e jejum,
    sua biblioteca,
    sua lavra de ouro,
    seu terno de vidro,
    sua incoerência,
    seu ódio – e agora?

    Com a chave na mão
    quer abrir a porta,
    não existe porta;
    quer morrer no mar,
    mas o mar secou;
    quer ir para Minas,
    Minas não há mais.
    José, e agora?

    Se você gritasse,
    se você gemesse,
    se você tocasse
    a valsa vienense,
    se você dormisse,
    se você cansasse,
    se você morresse...
    Mas você não morre,
    você é duro, José!

    Sozinho no escuro
    qual bicho-do-mato,
    sem teogonia,
    sem parede nua
    para se encostar,
    sem cavalo preto
    que fuja a galope,
    você marcha, José!
    José, para onde?




    Morte do leiteiro (http://www.memoriaviva.com.br/audio/leiteiro.mp3)

                        A Cyro Novaes

    Há pouco leite no país,
    é preciso entregá-lo cedo.
    Há muita sede no país,
    é preciso entregá-lo cedo.
    Há no país uma legenda,
    que ladrão se mata com tiro.
    Então o moço que é leiteiro
    de madrugada com sua lata
    sai correndo e distribuindo
    leite bom para gente ruim.
    Sua lata, suas garrafas
    e seus sapatos de borracha
    vão dizendo aos homens no sono
    que alguém acordou cedinho
    e veio do último subúrbio
    trazer o leite mais frio
    e mais alvo da melhor vaca
    para todos criarem força
    na luta brava da cidade.

    Na mão a garrafa branca
    não tem tempo de dizer
    as coisas que lhe atribuo
    nem o moço leiteiro ignaro,
    morados na Rua Namur,
    empregado no entreposto,
    com 21 anos de idade,
    sabe lá o que seja impulso
    de humana compreensão.
    E já que tem pressa, o corpo
    vai deixando à beira das casas
    uma apenas mercadoria.

    E como a porta dos fundos
    também escondesse gente
    que aspira ao pouco de leite
    disponível em nosso tempo,
    avancemos por esse beco,
    peguemos o corredor,
    depositemos o litro...
    Sem fazer barulho, é claro,
    que barulho nada resolve.

    Meu leiteiro tão sutil
    de passo maneiro e leve,
    antes desliza que marcha.
    É certo que algum rumor
    sempre se faz: passo errado,
    vaso de flor no caminho,
    cão latindo por princípio,
    ou um gato quizilento.
    E há sempre um senhor que acorda,
    resmunga e torna a dormir.

    Mas este acordou em pânico
    (ladrões infestam o bairro),
    não quis saber de mais nada.
    O revólver da gaveta
    saltou para sua mão.
    Ladrão? se pega com tiro.
    Os tiros na madrugada
    liquidaram meu leiteiro.
    Se era noivo, se era virgem,
    se era alegre, se era bom,
    não sei,
    é tarde para saber.

    Mas o homem perdeu o sono
    de todo, e foge pra rua.
    Meu Deus, matei um inocente.
    Bala que mata gatuno
    também serve pra furtar
    a vida de nosso irmão.
    Quem quiser que chame médico,
    polícia não bota a mão
    neste filho de meu pai.
    Está salva a propriedade.
    A noite geral prossegue,
    a manhã custa a chegar,
    mas o leiteiro
    estatelado, ao relento,
    perdeu a pressa que tinha.

    Da garrafa estilhaçada,
    no ladrilho já sereno
    escorre uma coisa espessa
    que é leite, sangue... não sei.
    Por entre objetos confusos,
    mal redimidos da noite,
    duas cores se procuram,
    suavemente se tocam,
    amorosamente se enlaçam,
    formando um terceiro tom
    a que chamamos aurora.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

25 de Outubro: Dia Mundial do Macarrão

No Dia do Macarrão, quebre mitos sobre o consumo de massas
Prato preferido do brasileiro, macarrão pode ser saboreado sem restrições e, aos contrário do que muitos acreditam, não engorda!

No almoço de domingo ele é o prato preferido. Além de delicioso, é pratico e criativo. Combina com legumes, queijos, carnes e até frutas. O macarrão é o nosso companheiro nos finais de noite e também quando queremos demonstrar nossos "dotes" culinários. Afinal, quem resiste a uma boa massa? É justamente por oferecer tantas vantagens, que o macarrão é homenageado no dia 25 de outubro, o Dia Mundial do Macarrão.

A data é lembrada em vários países, entre eles Estados Unidos, México, Turquia, Itália, Alemanha, Venezuela e Brasil, claro. O dia é comemorado desde 1995, a partir da realização do 1º Congresso Mundial de Pasta, em Roma.

O Brasil é o terceiro maior produtor de macarrão do mundo, com produção de1.2 milhão de toneladas (dados de 2011), e faturamento na ordem de R$ 2 bilhões. O consumo de macarrão no Brasil é de 6,2 kg por pessoa, a cada ano. O maior consumidor mundial é a Itália, com 28 kg por habitante/ano.


Alimento saudável
O macarrão é um dos ingredientes mais versáteis existentes na culinária, afinal seus inúmeros cortes – só no Brasil são mais de 30 variedades - permitem combinações com diversos molhos, carnes e vegetais. Por ser tão popular na mesa do brasileiro a massa também está envolta em diversos mitos.

Para celebrar o Dia Mundial do Macarrão sem culpa, fique atento às orientações da nutricionista Priscila Rosa, consultora da Isabela, marca de massas e biscoitos da Região Sul. Ela esclarece alguns mitos que rondam o consumo de massas.

Com certeza o mito mais difundido de todos é que o macarrão engorda, por ser rico em carboidrato. Mas segundo Priscila, não é a massa que engorda e sim a quantidade consumida e principalmente os acompanhamentos e molhos. Entretanto, se consumido nas quantidades adequadas para cada tipo de metabolismo e com molhos magros, como o ao sugo, de ervas ou com vegetais, o esse alimento resulta em mais energia para o dia a dia. A recomendação diária de consumo de carboidratos - indicado pelo Guia Alimentar para População Brasileira, do Ministério da Saúde - é de 5 a 6 porções diárias.

O fato do macarrão não engordar já é uma boa notícia, melhor ainda é saber que as massas podem ajudar a emagrecer. O macarrão faz com que o metabolismo fique mais ativo e com isso queime mais gorduras, ensina Priscila.

Para as mulheres que sofrem com a tão temida TPM mais uma notícia boa: o macarrão pode ajudar a liberar serotonina, substância química que age no cérebro gerando a sensação de bem-estar e tranquilizando os ânimos.

"O macarrão pode ser incluído em uma dieta balanceada. Além de molhos "leves" a dica para não elevar o valor calórico e a quantidade de gorduras é escolher acompanhamentos nutritivos como um filé grelhado (frango, peixe e carne bovina magra) ou uma boa salada de folhas e vegetais", finaliza a nutricionista.

Confira abaixo algumas sugestões para preparar o bom e velho macarrão de forma mais saudável. As receitas são da Cozinha Experimental da Isabela.


Espaguete ao Azeite com Salmão e Abobrinha

Divulgação/Isabela


Ingredientes:

- 1 embalagem de Espaguete Bom Gosto Isabela
- 5 colheres (sopa) de azeite extra virgem
- 2 cebolas médias, picadas
- 2 abobrinhas médias, em cubinhos
- 5 tomates maduros, sem sementes e sem pele, picados
- 500g de filé de salmão
- 2 dentes de alho, picados
- sal e alecrim a gosto

Modo de Preparo:

Comece preparando o salmão:

Numa assadeira média, acomode os filés de salmão e tempere com alho, sal e alecrim. Cubra com papel-alumínio e leve para assar em forno médio (180º) pré-aquecido por 25 minutos. Retire do forno, corte os filés de salmão em lascas e reserve.

Recheio:

Numa panela média, aqueça o azeite e refogue a cebola. Junte as abobrinhas, os tomates e deixe refogar por mais 10 minutos ou até que a abobrinha fica macia, se necessário acrescente ½ xícara (chá) de água. Acerte o sal e reserve.

Massa:

Numa panela grande ferva 5 litros de água com sal e cozinhe a massa. Para isso, coloque a massa e mexa de vez em quando, até que a água volte a ferver. Deixe cozinhar de acordo com o tempo indicado na embalagem ou até que fique "al dente", ou seja, macia, porém resistente à mordida. Escorra a massa, acomode num refratário grande, acrescente o refogado de abobrinha com tomate e envolva bem com a ajuda de dois garfos grandes. Espalhe por cima as lascas de salmão e sirva a seguir.

Variação: O salmão pode ser substituído por atum ou sardinha, no caso destes ingredientes, basta acrescentá-los no refogado de abobrinha com tomate e substituir o alecrim por salsinha.

Toque do Chef: A combinação de ingredientes desta receita é bastante nutritiva e indicada para idosos.

Informações nutricionais:

Por porção: aproximadamente 270g

Valor calórico:

- 3.237 kcal (receita total)
- 540 kcal (porção)

Proteínas:

- 187,12g (receita total)
- 31,18g (porção)

Carboidratos:

- 397g (receita total)
- 66g (porção)

Gorduras:

- 91,33g (receita total)
- 15,22g (porção)

Gravatinha ao Pesto de Tomate Seco com Rúcula

Divulgação/Isabela


Ingredientes:

- 1 embalagem de Gravatinha Com Ovos Isabela
- 1 xícara (chá) de azeite de oliva
- 200g de tomate seco, picados
- 2 dentes de alho, picados
- 50g de nozes, picadas
- queijo parmesão, ralado
- 1 maço de rúcula
- Sal

Modo de Preparo:

Comece preparando o pesto de tomate seco:

Leve ao liquidificador, o azeite, o tomate seco, o alho, as nozes e bata até envolver bem todos os ingredientes. Acerte o sal e reserve.

Massa:

Numa panela grande ferva 5 litros de água com sal e cozinhe a massa. Para isso, coloque a massa e mexa de vez em quando, até que a água volte a ferver. Deixe cozinhar de acordo com o tempo indicado na embalagem ou até que fique "al dente", ou seja, macia, porém resistente à mordida. Escorra a massa, acomode num refratário grande, acrescente o pesto de tomate seco e envolva bem com a ajuda de dois garfos grandes. Polvilhe o queijo parmesão, acomode por cima as folhas de rúcula e sirva a seguir.

Informações nutricionais:

Por porção: aproximadamente 270g

Valor calórico:

- 3.703 kcal (receita total)
- 618 kcal (porção)

Proteínas:

- 76,7g (receita total)
- 13g (porção)

Carboidratos:

- 432g (receita total)
- 72g (porção)

Gorduras:

- 198g (receita total)
- 33g (porção)

Ninho ao Molho Rosé com Palmito e Alho Poró
Divulgação/Isabela


Ingredientes:

- 1 embalagem de Massa Com Ovos Ninho Largo Isabela (500g)
- a gosto queijo parmesão ralado
- 8 colheres (sopa) de manteiga ou margarina
- 4 alhos poró, em rodelas (utilizar somente a parte branca)
- 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
- a gosto sal, salsinha picada e pimenta-do-reino
- 250ml de polpa de tomate
- 1 colher (sopa) de catchup
- 3 dentes de alho, picados
- 300g de palmito, em rodelas
- 1 litro de leite

Comece preparando o refogado de alho poró com palmito:

Numa frigideira média, aqueça a 6 colheres (sopa) de manteiga ou margarina, refogue 3 dentes de alho. Junte 4 alhos poró, 300g de palmito, deixe refogar por 5 minutos. Acerte o sal, mexa delicadamente e reserve.

Faça o molho rosé:

Numa panela média, aqueça as 2 colheres (dopa) de manteiga ou a margarina e doure 2 colheres (sopa) de farinha de trigo. Junte 1 litro de leite aos poucos, mexendo sempre para não empelotar. Acrescente 250ml de polpa de tomate, 1 colher (sopa) de catchup, acerte o sal, tempere com a pimenta do reino, mexa delicadamente e reserve.

Massa:

Numa panela grande ferva 5 litros de água com sal e cozinhe a massa. Para isso, coloque a massa e mexa de vez em quando, até que a água volte a ferver. Deixe cozinhar de acordo com o tempo indicado na embalagem ou até que fique "al dente", ou seja, macia, porém resistente à mordida. Escorra a massa, acomode num refratário grande, acrescente o molho de rosé, envolva bem com a ajuda de dois garfos grandes. Acomode o refogado de alho poro com palmito. Salpique salsinha, polvilhe queijo parmesão e sirva a seguir.

Receita: Salgada
Tipo: Prato Principal
Categoria: Massas longas - Ninho Largo
Preparo: Forno e Fogão
Grau de dificuldade: Fácil
Tempo de preparo: 30 minutos
Calorias: 632 calorias
Rendimento: 6 porções 

sábado, 22 de setembro de 2012

22 de Setembro: Dia da Banana


A banana é o fruto (ou melhor: uma pseudobaga) da bananeira, uma planta herbácea vivaz acaule (e não uma "árvore", apesar do seu porte) da família Musaceae (género Musa - além do género Ensete, que produz as chamadas "falsas bananas"). As bananas constituem o quarto produto alimentar mais produzido no mundo, a seguir ao arroz, trigo e milho. São cultivadas em 130 países. São originárias do sudeste da Ásia, sendo actualmente cultivadas em praticamente todas as regiões tropicais do planeta.
Embora não seja nativa do continente americano (é originária do Sul da Ásia e da Indonésia), adaptou-se muito bem ao nosso solo e clima.
A banana é uma fruta de alto valor nutritivo, muito rica em açúcar e sais minerais, principalmente cálcio, fósforo e ferro, e vitaminas A, B1, B2 e C. Fácil de digerir, pode ser dada às crianças a partir dos 6 meses de idade. Como quase não tem gordura, é indicada nas dietas baixas em colesterol. Pode ser consumida ao natural, como sobremesa, ou ser usada nos mais variados tipos de prato: salada de frutas, bolos, tortas, vitaminas, sorvetes, mingaus, recheios de aves e carnes, farofas, musses e sanduíches.

Existem cerca de cem tipos de banana cultivadas no mundo todo, porém os mais conhecidos no Brasil são:


banana-maçã (ou banana-branca) - de tamanho variado, pode atingir, no máximo, 15 cm e pesar 160 g. É ligeiramente curva, tem casca fina, amarelo-clara, e polpa branca, bem aromática, de sabor muito apreciado. Recomendada como alimento para bebês, fica muito gostosa amassada e misturada com aveia, biscoito ralado ou farinhas enriquecidas.



banana-prata
(ou banana-anã-grande) - tem fruto reto, de até 15 cm de comprimento, casca amarelo-esverdeada, de cinco facetas, polpa menos doce que a da banana-nanica, mais consistente e indicada para fritar.


banana-nanica
(conhecida também como banana-d'água, banana-da-china, banana-anã ou banana-chorona) - tem casca fina e amarelo-esverdeada (mesmo na fruta madura) e polpa doce, macia e de aroma agradável. Cada cacho tem por volta de duzentas bananas.


banana-ouro
(inajá, banana-dedo-de-moça, banana-mosquito ou banana-imperador) - é a menor de todas as bananas, medindo no máximo 10 cm. Tem forma cilíndrica, casca fina de cor amarelo-ouro, polpa doce, de sabor e cheiro agradáveis. É muito usada para fazer croquetes.

 
banana-sapo - fruto curto, grosso e anguloso, com casca espessa e dura, e polpa pouco delicada, mais usada como alimento de animais domésticos.



banana-da-terra
(banana-chifre-de-boi, banana-comprida ou pacovan) - são as maiores bananas conhecidas, chegando a pesar 500 g cada fruta e a ter comprimento de 30 cm. É achatada num dos lados, tem casca amarelo-escura, com grandes manchas pretas quando maduras, e polpa bem consistente, de cor rosada e textura macia e compacta, sendo mais rica em amido do que açúcar, o que a torna ideal para cozinhar, assar ou fritar.


banana-de-são-tomé
(banana-curta ou banana-do-paraíso) - existem dois tipos, que se diferenciam apenas na cor da casca - roxa ou amarela. São pouco apreciadas, devido à polpa amarela e ao cheiro muito forte. Recomenda-se consumí-las cozidas, fritas ou assadas.

Embora a banana possa ser encontrada o ano todo, durante os meses de maio e junho são comercializadas as melhores safras. A fruta deve ser colhida ainda verde e deixada à sombra e em temperatura ambiente para que possa amadurecer. Isso garante que não sofra alterações que prejudicam sua qualidade e seu valor nutritivo. Se a banana amadurecer no pé, fica muito seca e farinhenta

Dicas

Para consumo imediato, compre a banana com casca bem amarela e pequenas manchas marrons, de aspecto firme, sem partes moles ou machucadas e que não tenha as pontas verdes. Se não for para consumo imediato, dê preferência às que estão ligeiramente verdes. Para acelerar o amadurecimento da fruta, embrulhe em folhas de jornal. Para retardar o amadurecimento, compre a banana em pencas, pois as destacadas ficam maduras mais depressa.
A banana deve ser conservada em lugar fresco e seco, não sendo aconselhável guardar na geladeira, pois ela perde o sabor e se deteriora com maior facilidade. Para guardar bananas já descascadas, coloque-as dentro de um recipiente que possa ser bem fechado e mantenha em lugar seco e, para evitar que fique escura, pingue algumas gotas de limão. 



Fonte: http://www.cliqueagosto.com.br/novidades/22-de-setembro-dia-da-banana

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Edla van Steen (Florianópolis-SC, 12/07/1936)



Intimidade
Edla van Steen

Para mim esta é a melhor hora do dia — Ema disse, voltando do quarto dos meninos. — Com as crianças na cama, a casa fica tão sossegada.

— Só que já é noite — a amiga corrigiu, sem tirar os olhos da revista.

Ema agachou-se para recolher o quebra-cabeça esparramado pelo chão.

— É força de expressão, sua boba. O dia acaba quando eu vou dormir, isto é, o dia tem vinte e quatro horas e a semana tem sete dias, não está certo? — descobriu um sapato sob a poltrona. Pegou-o e, quase deitada no tapete, procurou o par embaixo dos outros móveis. — Não sei por que a empregada não reúne essas coisas antes de ir se deitar — empilhou os objetos no degrau da escada. — Afinal, é paga para isso, não acha?

— Às vezes é útil a gente fechar os olhos e fingir que não está notando os defeitos. Ela é boa babá, o que é mais importante.

Ema concordou. Era bom ter uma amiga tão experiente. Nem precisa ser da mesma idade — deixou-se cair no sofá — Bárbara, muito mais sábia. Examinou-a a ler: uma linha de luz dourada valorizava o perfil privilegiado. As duas eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. Até ter filhos juntas conseguiram, acreditasse quem quisesse. Tão gostoso, ambas no hospital. A semelhança física teria contribuído para o perfeito entendimento? "Imaginava que fossem irmãs", muitos diziam, o que sempre causava satisfação.

— O que está se passando nessa cabecinha? — Bárbara estranhou a amiga, só doente pararia quieta. Admirou-a: os cabelos soltos, caídos no rosto, escondiam os olhos cinza, azuis ou verdes, conforme o reflexo da roupa. De que cor estariam hoje? — inclinou-se — estão cinza.

Ema aprumou o corpo.

— Pensava que se nós morássemos numa casa grande, vocês e nós... Bárbara sorriu. Também ela uma vez tivera a idéia — pegou o isqueiro e acendeu dois cigarros, dando um a Ema, que agradeceu com o gesto habitual: aproximou o dedo indicador dos lábios e soltou um beijo no ar.

— As crianças brigariam o tempo todo.

Novamente a amiga tinha razão. Os filhos não se suportavam, discutiam por qualquer motivo, ciúme doentio de tudo. O que sombreava o relacionamento dos casais.

— Pelo menos podíamos morar mais perto, então.

Ema terminava o cigarro, que preguiça. Se o marido estivesse em casa seria obrigada a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho — levantou-se, repelindo a lembrança. Preparou uma jarra de limonada. Por que todo aquele interesse de Bárbara na revista? Reformulou a pergunta em voz alta.

— Nada em especial. Uma pesquisa sobre o comportamento das crianças na escola, de como se modificam as personalidades longe dos pais.

No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.

— Porcaria, meu sutiã arrebentou.

— A alça?

— Deve ter sido o fecho — ergueu a blusa — veja.

Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.

— Não dá, quebrou pra valer.

Ema serviu a limonada. Depois, passou a mão pelo busto.

— Você acha que eu tenho seio demais?

— Claro que não. Os meus são maiores...

— Está brincando — Ema sorriu e bebeu o suco em goles curtos, ininterruptos.

— Duvida? Pode medir...

— De sutiã não vale — argumentou. — Vamos lá em cima. A gente se despe e compara — aproveitou a subida para recolher a desordem empilhada. Fazia questão de manter a casa impecável. Bárbara pensou que a amiga talvez tivesse um pouco de neurose com arrumação.

Ema acendeu a luz do quarto.

— Comprou lençóis novos?

— Mamãe mandou de presente. Chegaram ontem. Esqueci de contar. Não são lindos?

— São.

— A velha tem gosto — Ema disse, enquanto se despia em frente ao espelho. Bárbara imitou-a.

É muito bonita — Ema reconheceu. Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. Porém, ela não perdia em atributos, igualmente favorecida pela sorte. Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo — não é, Bárbara?

— Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus — a outra admitiu, confrontando.

Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.

— O que não significa nada, de acordo? — deu-lhe um beijo.

— Credo, Ema, suas mãos estão geladas e com este calor...

— É má circulação.

— Coitadinha — Bárbara esfregou-as vigorosamente. — Você precisa fazer massagens e exercícios, assim — abria e fechava os dedos, esticando e contraindo na palma. — Experimente.

Eram tão raros os instantes de intimidade e tão bons. Conversaram sobre as crianças, os maridos, os filmes da semana. Davam-se maravilhosamente — Bárbara suspirou e se dirigiu à janela: viu telhados escuros e misteriosos. Ela adoraria ser invisível para entrar em todas as casas e devassar aquelas vidas estranhas. Costumava diminuir a marcha do carro nos pontos de ônibus e tentar adivinhar segredos nos rostos vagos das filas. Isso acontecia nos seus dias de tristeza. Alguma coisa em algum lugar, que ela nem suspeitava o que fosse, provocava nela uma sensação de tristeza inexplicável. Igual à que sente agora. Uma tristeza delicada, de quem está de luto. Por quê?

— Que horas são? — Ema escovava o cabelo.

— Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.

— Que pena. Não sei por que fui pensar em hora. Fique mais um pouco.

— É tarde, Ema. Tchau. Não precisa descer.

— Ora, Bárbara... deixa disso — levou a amiga até o portão.

— Boa noite, querida. Durma bem.

— Até amanhã.

Ema examinou atentamente a sala, a conferir, pela última vez, a arrumação geral. Reparou na bandeja esquecida sobre a mesa, mas não se incomodou. Queria um minutinho de... ela apreciava tanto a casa prestes a adormecer — apagou as luzes. A noite estava clara, cor de madrugada pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?


Edla van Steen nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, em 1936. Seu pai era belga e cônsul-honorário naquela cidade. Tem 25 livros publicados, entre contos, romances, entrevistas, peças de teatro, livros de arte.  A escritora é casada com o historiador e crítico teatral Sábato Magaldi.

Alguns trabalhos:

No Brasil:

- Cio, 1965 (contos)
- Memórias do medo, 1974 (romance)
- Antes do amanhecer, 1977 (contos)
- Corações mordidos, 1983 (romance)
- Até sempre, 1985 (contos)
- Madrugada, 1992 (romance)
- Cheiro de amor, 1996 (contos)
- No silêncio das nuvens, 2001 (contos)
- A ira das águas, 2004 (contos)


No Exterior:

- A bag of stories, 1991 (EUA)
- Scent of love, 1991(EUA)
- Village of the ghost bells (Coração mordidos), 1991 (romance)
- Early mourning (Madrugada), 1991 (romance),  EUA


Infanto-juvenis:

- Manto de nuvem, 1985
- Por acaso, 1996
- O gato barbudo, 2000
- O presente, 2001


Prêmios:

- 1989 - Prêmio Molière e Mambembe de "Melhor Autor" e APCA de "Revelação de Autor" por "O último encontro

- 1992 - Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras e o Prêmio Nacional Pen Club, por "Madrugada".

- 1996 - Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, categoria autor consagrado, por "Cheiro de amor".

O texto acima, publicado em "
O Prazer é Todo Meu — Contos Eróticos Femininos", seleção de Márcia Denser para a Editora Record — Rio de Janeiro, 1985, consta também do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 447.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Raízes do Brasil



Dividido em duas partes, o filme mostra a vida e obra de Sérgio Buarque de Holanda (11/07/1902 - 24/04/1982), um dos principais intelectuais do Brasil no século XX e autor dos livros "Raízes do Brasil" e "Visões do Paraíso", desde o cotidiano de Sérgio, incluindo o modo como interagia com a família e amigos, até um panorama cronológico de sua época, em que lidou com o nazismo, os anos de Getúlio Vargas no poder e a ascensão do movimento modernista no Brasil.


Raízes do Brasil I



Raízes do Brasil II